
Por: Vanderlei de Lima é eremita de Charles de Foucauld
Prezado(a) leitor(a), quando algo vai mal na vida das pessoas ou das instituições, há sempre uma tendência a buscar terceiros como culpados, mas quase nunca fazer um exame de consciência a fim de perguntar: E nós, onde erramos? Eis a razão deste artigo a convidar, quando algo não vai bem, a buscar ver, antes de apontar o dedo para os outros, em que falhamos.
Com efeito, logo após o cisma de Lutero, o Papa Adriano VI (1522-1523), assim se dirigiu àqueles que o representariam na Dieta de Ratisbona: “Dirás que reconhecemos livremente que Deus permitiu estas perseguições à Igreja por causa dos pecados dos homens, e, de modo especial, dos sacerdotes, dos prelados... A Escritura Sagrada ensina-nos com ênfase que as faltas do povo têm suas fontes nas faltas do clero... Sabemos que, mesmo na Santa Sé, anos atrás, foram cometidas abominações numerosas, abusos das coisas sagradas, transgressões dos mandamentos, de tal sorte que tudo redundou em escândalo” (L. von Pastor. Histoire des Papes, t. IX, p. 103s).
Já no século XX, o Concílio Vaticano II (1962-1965), após constatar o ateísmo como uma das correntes que se opõem ao Evangelho, chama também a atenção dos fiéis católicos, especialmente no tocante à transmissão da doutrina que professam pelo modo de vida que levam. São palavras dos Padres conciliares: “Quanto ao remédio para o ateísmo, ele há de vir da conveniente exposição da doutrina e da vida íntegra da Igreja e dos seus membros. Pois a Igreja deve tornar presente e como que visível a Deus Pai e a seu Filho encarnado, renovando-se e purificando-se continuamente sob a direção do Espírito Santo. Isto há de alcançar-se, antes do mais, com o testemunho de uma fé viva e adulta, educada de modo a poder perceber claramente e superar as dificuldades. Magnífico testemunho desta fé deram e continuam a dar inúmeros mártires. Ela deve manifestar a sua fecundidade, penetrando toda a vida dos fiéis, mesmo a profana, levando-os à justiça e ao amor, sobretudo para com os necessitados. Finalmente, o que contribui mais que tudo para manifestar a presença de Deus é a caridade fraterna dos fiéis que unanimemente colaboram com a fé do Evangelho e se apresentam como sinal de unidade” (n. 21).
De fato, em certos ambientes, não há outra forma de pregação a não ser o exemplo da própria vida. Não por um modo de ser afetado, mas simples, coerente, capaz de sempre transmitir “o bom odor de Cristo” (2Cor 2,15). Dirá São Charles de Foucauld algo muito oportuno sobre este modo de evangelizar: “Meu apostolado deve ser o apostolado da bondade; ao me verem, as pessoas devem dizer: ‘Sendo esse homem tão bom, sua religião deve ser boa’” (Ir. Annie de Jesus. Charles de Foucauld: nos passos de Jesus de Nazaré. São Paulo: Cidade Nova, 2004, p. 79). Mais ainda: “Quando se quer converter uma alma – costumava dizer – nunca se deve esmagá-la com sermões; o método mais eficaz consiste não em enchê-la de pregações, mas em testemunhar-lhe o amor” (Jean-François Six. O irmão universal: vida de Carlos de Foucauld. Lisboa: San Pedro, s/d, p. 41).
Isto posto, vem uma questão crucial: Por que Deus permite o mal na Igreja? – Em resposta, diremos que o Senhor mesmo diz que no Seu campo, que é a Igreja, há o joio e o trigo (cf. Mt 13,24-30; 36-43); boas e más pessoas, portanto. O ser humano é, dentro ou fora da Igreja, frágil e tendente ao mal, não obstante sua luta aguerrida contra ele. E Deus, na sua infinita sabedoria, pode usar dessa fraqueza humana a fim de manifestar a Sua força (cf. 2Cor 12,7-10). A obra divina, ocorre, talvez, não por causa de nós, mas apesar de nós, insuficientes instrumentos.
Aqui está a beleza da Igreja: divina, por sua natureza, mas humana devido aos seus maus membros. Eles, todavia, estimulam, com suas falhas, seus irmãos a suprirem a lacuna que deixam...
Por: Vanderlei de Lima é eremita de Charles de Foucauld
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